Homilia da Missa do Crisma - Semana Santa 2022

Homilia da Missa do Crisma - Semana Santa 2022

POSTADO EM 29 de Abril de 2022

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MISSA do CRISMA

13 de abril de 2022 HOMILIA

                                                                                                                                   “... Vós sois para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa...” (Ex 19, 6b).

Caríssimos irmãos presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas, representantes leigos e leigas de nossas paróquias, coordenadores de comunidades, atividades pastorais e evangelizadoras, movimentos e grupos.

A Eucaristia que hoje celebramos na Igreja Mãe e centro de comunhão da Igreja Particular, sob a presidência do Bispo, copresidência dos presbíteros e participação ativa, piedosa e frutuosa dos fiéis leigos e leigas, nesta circunstância privilegiada que é a MISSA do CRISMA, nos remete à oração de Jesus no capítulo 17 do Evangelho de São João. Nesta oração, ao pedir a sua glorificação, o que ele pede, na verdade, é a glorificação do Pai. Sua glorificação e a glorificação do Pai são uma coisa só; glorificação que consiste na vida eterna, que alcança toda a carne – todos os seres humanos.

Queremos, nesta solene liturgia, com a bênção dos óleos para o batismo e para a unção dos enfermos e a consagração do Crisma, contemplar e agradecer uma vez mais, com alegria, nossa vocação de povo sacerdotal, “chamado a testemunhar a verdade no interior de uma sociedade em que imperam a mentira, a violência e a morte. Na fidelidade a essa missão é que será possível experimentar a vida eterna, a vida que deriva do compromisso com o Deus verdadeiro e seu Filho” (Bíblia Pastoral, nota de rodapé, cap. 17, 1-5).

“... Na oração pelos discípulos de todos os tempos, ele viu-nos também a nós e rezou por nós. Ouçamos o que pede para os doze e para nós aqui reunidos: “Consagra-os na verdade. A tua Palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. Eu consagro-me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade” (Jo 17, 17s). O Senhor pede a nossa santificação, a nossa consagração na verdade para continuarmos a sua própria missão” (Bento XVI, Pregações para o Ano Litúrgico – B).

Irmãos e irmãs, somos um povo sacerdotal, um povo de consagrados para servir, a exemplo de Jesus, nosso Mestre e Senhor. O presbítero, o padre, o sacerdote é um consagrado, unido de tal modo a Cristo que se torna um com ele. É o próprio Cristo que o atrai para dentro dele.

É a partir dessa configuração que tudo em nós acontece, encontra sentido e se expressa, não como dominação, privilégios ou mesmo direitos, mas como serviço. Na amizade íntima com ele é que o padre vai conhecendo-o, aprendendo com ele e com ele se identificando, tornando-se outro Cristo, em seu modo de ser, pensar e agir, sobretudo pela oração.

Bento XVI ensina a todos, particularmente aos padres, que rezar é fazer a estrada em comunhão pessoal com Cristo, expondo diante dele a vida diária, os sucessos, os fracassos, as fadigas e as alegrias: é simplesmente apresentarmo-nos e sermos o que somos. Mas, para que isso não se torne um autocontemplar-se, é importante aprendermos continuamente a rezar como ele rezou, a rezar com a Igreja, com o mundo inteiro.

Celebrar a Eucaristia quer dizer rezar. Nós a celebramos no justo modo se, com o nosso pensamento e com o nosso ser, penetramos nas palavras que a Igreja nos propõe. Nela está presente a oração de todas as gerações, que nos tomam consigo ao longo do caminho para o Senhor. E, como sacerdotes somos na Celebração Eucarística aqueles que, com sua oração, abrem estrada à oração dos fiéis de hoje. Se estivermos interiormente unidos às palavras da oração, se nos deixarmos guiar e transformar por ela, então também os fiéis encontram o acesso a tais palavras. Assim tornamo-nos todos verdadeiramente “um só Corpo e uma só Alma com Cristo” (Bento XVI, Pregações para o Ano Litúrgico – B).

Seja fundamental em nossa vida o zelus animarum, expressão que caracteriza a pessoa toda, por inteiro, com corpo e alma, destinada à eternidade. Só com a consciência dessa pertença, consagração e configuração a Cristo é que poderemos ser felizes, realizar em nossa vida o “Mistério de Cristo” do qual somos dispensadores, mormente em tempos difíceis, exercendo nosso ministério com qualidade que se traduza por alegria, proximidade, misericórdia e verdade.

Busquemos, eu peço, nas possibilidades e nos limites, viver como um corpo, solidários, irmãos de verdade, e como família sacerdotal que necessariamente passa pela experiência da diocesaneidade – relação entre nós, presbíteros com o Bispo, e com os irmãos fiéis leigos e leigas.

Manifesto aqui minha gratidão aos presbíteros que, para além de suas preocupações pessoais e paroquiais, estão verdadeiramente comprometidos com a Igreja Diocesana, acolhendo irmãos presbíteros em suas necessidades, partilhando do seu ministério e ajuda material, amando-a para que possa servir sempre mais e melhor.

Aos irmãos leigos e leigas, renovamos nosso apreço e consideração. “Configurados a Cristo pelo Batismo”, eles são “sujeito eclesial”

– sujeito na Igreja, “embaixadores de Cristo”, com a cidadania própria do povo de Deus. Eles são participantes, por direito, da missão da Igreja, com um lugar insubstituível no anúncio e serviço do Evangelho. Não podem ficar fora da verdadeira comunhão, entre si e com os seus pastores, o que gera corresponsabilidade, para vivência na liberdade, autonomia e sadia relacionalidade, uma vez que não são cristãos de segunda categoria, cumpridores de tarefas, pessoas submissas. Aí está o caminho da sinodalidade, tão caro ao Papa Francisco e a toda Igreja, desde as primeiras comunidades cristãs: caminho de comunhão – participação – missão.

Quantos aos irmãos e irmãs de vida consagrada, particularmente unidos a Cristo, também são chamados a tornar visíveis as maravilhas que Deus realiza na frágil humanidade da condição deles. Mais do que palavras, testemunham essas maravilhas com a linguagem de uma existência sincera, correta e sempre disponível, transfigurada no segmento de Jesus, pobre e casto.

O Papa Francisco, que é também um consagrado, assim se expressou: “...estar na contemplação com Jesus, único Senhor da vida dos consagrados e consagradas, forma para um olhar contemplativo da história, e os ajuda a discernir nela a presença do Espírito de Deus, para viver o tempo como o tempo de Deus...”

Aos nossos seminaristas, consagrados pelo batismo, a Igreja pede que o itinerário do processo formativo – vida no seminário, na pastoral, na família e na universidade seja marcado: 1. Pela proximidade com Deus em Jesus Cristo – olhos fixos nele para não descuidar do convite diário: segue-me; 2. Pela conversão – modelar a vida e o modo de pensar a partir de Jesus Cristo Crucificado, morrendo com ele cada dia, sobretudo para o pecado, para nele alcançar a salvação; 3. Pela busca do discipulado – deixar-se formar na escola de Jesus para atingir a personalidade dele; 4. Pela proximidade com o outro no exercício diário para a comunhão – “a Igreja necessita de sacerdotes e consagrados que nunca percam a consciência de serem discípulos em comunhão”, sentir e agir com a Igreja; 5. Pela proximidade com o povo na missão, sempre inseparável do discipulado – desde o tempo de formação, o verdadeiro seminarista tem o coração aberto para anunciar Jesus, morto e ressuscitado, até os confins do mundo; 6. Pela vida interior – vida de oração, fiel à espiritualidade centrada em Jesus Cristo, cuidando desde já para não se entregar à mundanidade espiritual, que já entrou na Igreja e tomou conta de muitos leigos e leigas, religiosos e religiosas, padres e Bispos; 7. Pela proximidade com o Bispo – com confiança, abertura e alegria.

Peço aos seminaristas, aos presbíteros e também a mim, que sejamos libertos da obsessão pela aparência, com a segurança doutrinal ou disciplinar presunçosa, o narcisismo e o autoritarismo, o modismo, a pretensão de impor-se, o cuidado somente exterior e ostentação na vida litúrgica, a vanglória, o individualismo, o desejo de manipular, a incapacidade para escutar o outro e, sobretudo, todo gênero de carreirismo. Enfim, que todos nos libertemos da autorreferencialidade, privilegiando a alteridade – ser com os outros e para os outros.

Como povo sacerdotal, confiemo-nos a Maria, mãe de Jesus, nossa mãe e gloriosa padroeira, como também a seu esposo José, nossa referência, na fidelidade, na justiça e na obediência .

E com toda a Igreja, apresentemo-nos sempre mais como povo de Deus reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.


† Sérgio Bispo Diocesano


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