Uma Igreja pobre e para os pobres: Diocese de Bragança Paulista - 95 anos evangelizando com Maria, a Mãe de Jesus!

POSTADO EM 22 de Julho de 2020


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                A frase que dá sentido ao título que oferecemos ao texto está relacionada a uma compreensão do Papa Francisco que afirma “a Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, mas essencialmente espiritual”. E essa expressão ainda manifesta o seu desejo particular, o qual foi repercutido de modo midiático, reconhecido como fruto do diálogo do então Cardeal Bergoglio com o Cardeal Hummes, que viria a culminar com a escolha do nome “Francisco” para o seu pontificado.

                Como instituição histórica, também a Igreja de Bragança no Brasil, pode comemorar seus 95 anos de evangelização. Foi em 1925 que o Papa Pio XI criou a Diocese de Bragança no Brasil através da Bula “Ad Sacram Petri Sedem”. O seu território foi retirado da Arquidiocese de São Paulo, e em parte, da Diocese de Campinas. Com a criação, Dom Duarte Leopoldo e Silva ficou como administrador apostólico durante os anos de 1925 a 1927, então, tomou posse como 1o bispo diocesano, Dom José Maurício da Rocha.

                A história é marcada por tensões, e com a Igreja de Bragança não foi diferente. Daquilo que pode ser recolhido, seja em documentação, ou mesmo da tradição oral, podemos reconhecer que muitas ações sejam elas, por parte do clero e dos leigos, favoreceram que a Diocese seja o que ela é hoje. Há 95 evangelizando com Maria, muitas graças foram derramadas, mas também, houveram muitas situações contrárias às perspectivas do Evangelho.

                O Papa Francisco afirma que a Igreja não tem medo da história, mas ela a ama. E por isso, diante dos pecados e crimes cometidos, pede perdão, reconcilia-se com a história e abre-se para viver a história da salvação, isto é, procura no tempo agir conforme à condução do Espírito, como fez Maria. No chamado feito a jovem Maria, não sem questionamentos, ela disse “Sim”, e assumiu com coragem e determinação realizar a vontade de Deus para todo o Povo por meio de sua vida. Ela deu-nos Jesus, o Salvador e Redentor, e continua a oferecê-Lo, hoje, sobretudo, por meio da Igreja, que é sacramento universal de salvação.

                Considerando que a história pode ser “olhada, lida, escutada, sentida e escrita” de diversos modos, o que o Papa Francisco chama de poliedro da própria realidade, ou seja, a realidade é maior que a ideia, afirmamos que a história da Diocese pode ser compreendida por meio das ações que realizaram os bispos diocesanos juntamente com o clero, mas também, todas as iniciativas dos leigos e leigas, enfim, do Povo de Deus. E ainda uma leitura da história a partir de uma “consciência dolorosa” que não seja indiferente ao sofrimento, semelhante ao olhar de Jesus, que nos evangelhos é apresentado como compaixão. Esta sensibilidade é necessária para que se possa compreender um modo de ver a história e que também se aproxima do modo como Maria vivia sua fé na vida.

                No canto do Magnificat temos uma compreensão que revela sua fé. Ela é a humilde serva do Senhor que reconhece as maravilhas que Deus faz. Ela sabe que Deus é Santo e Justo, por isso, Ele derruba do trono os poderosos, e eleva os humildes. Os poderosos colocam-se no lugar de Deus, e se fazem idolatrar, e sem humildade não são capazes de reconhecer no outro um outro igual, isto é, como imagem de Deus. Ela canta afirmando que Ele dispersa os soberbos de coração, e por isso despede os ricos de mãos vazias, e enche a mesa dos famintos. Ele não abandona os ricos, mas não é conivente com suas atitudes que fazem aprofundar a fome e a miséria, pois não sabem partilhar. Sua fé é no Deus misericordioso que estende sua misericórdia de geração a geração.

Compreendendo a fé de Maria, podemos então, olhar para a história e contemplá-la com os olhos misericordiosos de Jesus, isto é, movidos por compaixão pelos pobres. O amor a Deus manifesta-se como prática da justiça em favor daquele e daquela que está sofrendo. Deus não é indiferente ao sofrimento humano e ao que é feito a natureza. Com certeza, houveram posturas no passado e no presente que demonstram atitudes faltosas com a caridade, mas semelhante ao Reino, que é como um grão de mostarda e uma porção de fermento, ou seja, nas pequenas e simples atitudes, na realização de atividades evangelizadoras, sobretudo, que levaram e levam as pessoas a fazerem uma experiência de encontro com Jesus Cristo e desperta-as para a solidariedade, aí a Igreja realizou e realiza sua missão.


Quantas iniciativas, empenho pastoral de bispos, padres e fiéis leigos e leigas que fizeram o Reino crescer por meio da Igreja de Bragança.

                 Uma Diocese que recebeu a herança de uma Igreja no Brasil que deixava o Padroado, mas com forte acento numa cultura de coronelismo que havia no interior paulista, sobretudo, devido ao poderio dos barões de café. Mas que a viu crescer e se transformar devido o serviço missionário dos padres do Pime em Bragança Paulista, como também outras congregações que aqui chegaram. Uma Igreja que viveu a tensão provocada pelo Concílio Vaticano II e que sentiu as mudanças.

                A expressão simbólica da acolhida, mas não sem resistências ao espírito do Concílio, ou ainda mais, “de sua filha”, a Conferência de Medellín em 1968, reconhecida na arquitetura. A construção da nova catedral de Bragança Paulista traz este sentido de uma Igreja que anuncia que Jesus Cristo salva e veio para servir. E o espírito Conciliar de “serviço ao mundo” em perspectiva pastoral, ou seja, de uma Igreja Povo de Deus é identificado pela barca que lembra sua construção e a “opção pelos pobres” está demonstrada nas pinturas da via-sacra ou “via crucis” que temos dentro da Catedral.

                A nova catedral teve sua construção iniciada em 05 de fevereiro de 1965, no tempo em que acontecia o Concílio e terminou no dia 08 de dezembro de 1977 com Santa Missa presidida pelo Núncio Apostólico Dom Carmine Rocco. A via-sacra foi pintada em 1968 por Sebastião Justino de Faria, conhecido como Mestre Justino da Redenção. Seus estudos para elaborar a via-sacra levaram ele a produzir uma arte que demonstrasse os encontros e desencontros, incompreensão e salvação, inerentes ao processo que levou Jesus à morte na cruz. Nas 14 estações apresenta acontecimentos dramáticos e desconcertantes que vivem às pessoas no cotidiano. Poderíamos, usando uma nova sensibilidade contemplativa, dizer que sua arte comunica o desejo de proximidade da Igreja de Bragança ao homem e mulher real que vive o mistério da cruz em suas vidas procurando viver o seguimento de Jesus, ou ainda, o chamado à contemplar no Crucificado os crucificados do nosso tempo. De qualquer modo, o serviço pastoral, coloca-nos em atitude semelhante a de Maria, que às pressas foi ajudar sua prima Isabel.

                A Diocese segue em sua missão de anunciar Jesus Cristo e oferecer solidariedade as pessoas. Compreende-se como Povo de Deus que são discípulos-missionários de Jesus Cristo e por meio das paróquias em rede de comunidades e animadas pelos serviços missionário e vocacional procuram despertar a missão permanente e as vocações, e por meio dos movimentos e as comunidades fazem a Igreja “avivar”. Empenha-se em buscar diálogo com outras religiões e igrejas cristãs, e também os ateus. Esforça em realizar um projeto comum que anime a dinâmica pastoral de modo organizado e faz-se próxima procurando “tocar a carne de Cristo na carne sofrida do pobre”, sobretudo, por meio da sua presença junto às pessoas que estão enfermas, como também aquelas que estão em situação prisional, ou mesmo menores infratores, e que sofrem toda forma de discriminação e racismo, como os quilombolas e as comunidades de matriz africana e islâmica.

                Há 95 anos evangelizando com Maria, a Mãe de Jesus, e Mãe da Igreja, do Povo de Deus desta Diocese de Bragança Paulista. E como Mãe cuida com amor de cada filho e filha. Neste momento, queremos como Maria, guardar em nosso coração e fazer memória dessa história da qual estamos fazendo parte. Que possamos crescer na devoção à Imaculada Conceição e neste sentido, a oração do Santo Terço, seja a oração do nosso coração, e rezando lembremos de suas palavras na aparição aos pastorinhos em Fátima: “Rezai o terço todos os dias e rezai pela paz no mundo”. Desta devoção, formar o coração, assim como é preciso molhar a terra para que a boa semente possa frutificar, a oração do Santo Terço é como uma chuva de graças que molha o coração para que a boa semente do Evangelho frutifique. E inspirados em Maria, busquemos viver com determinação nossa missão anunciando a Alegria do Evangelho e procuremos ir às pressas colocar-se a serviço das pessoas que estão sofrendo. E sendo Igreja em saída não fiquemos limitados à nossa realidade, mas deixemos que o Espírito conduza-nos a irmos além-fronteiras.

                O desafio do século XXI é vivermos unidos e conviver com as diferenças, para isto, será fundamental uma cultura do encontro que favoreça sermos construtores de pontes e isto pede uma cultura da misericórdia. Uma Igreja em saída é uma Igreja que quer ser pobre para os pobres, ou seja, que quer abandonar sua cultura principesca e colocar-se com humildade a servir. O sinal dessa simplicidade e sobriedade de vida, o Reino que acontece e está crescendo em nosso meio, pode ser reconhecido na presença do Deus vivo e ressuscitado que com seu Espírito conduz a Igreja e que no meio do Povo, faz-se sentir no modo muito próprio do nosso povo fazer sua devoção à Mãe de Deus. A Igreja é viva em suas rezas, novenas, romarias, louvores e procissões. Esta mesma Igreja continua ajudando este povo a encontrar-se com Jesus por meio de Maria. E com ela queremos continuar a evangelizar. Queremos amá-la cada vez mais e assim amar muito mais Jesus. E amando-o, e sentindo-se amado por Ele também queremos amar.

                Uma Igreja pobre para os pobres é ser uma comunidade do Amor, que vive desprendida e despojada, livre para amar e servir. Uma Igreja misericordiosa que como o bom samaritano vai ao encontro de que caiu, sente compaixão e cuida dele. Uma Igreja que compreende sua vocação de cuidar da Casa Comum, reconhecendo-a vocação de anunciar o Evangelho da Criação. Uma Igreja que viva da alegria que faz exultar, pois sabe reconhecer as maravilhas que Deus fez e faz.

                Uma Igreja que nasce da Eucaristia e a da Eucaristia se alimenta aprendendo a partilhar a vida como Jesus.

                Uma Igreja que acolhe a Salvação e a oferece no testemunho de Caridade. Uma Igreja que caminha para o Céu e que quer colaborar para que aqui entre nós vivamos já o Céu. Uma Igreja que busca levar a Boa Nova da Paz promovendo a justiça em prol da fraternidade.

             Uma Igreja que sonha com o Papa Francisco em ser um sinal misericordioso de Deus no mundo, de modo particular, nesta região pastoral da Diocese de Bragança Paulista, onde é chamada a ser luz do mundo, deixando-se iluminar por Cristo que é a Luz que dissipa todas as trevas. Uma Igreja que protege os menores e os vulneráveis, comprometida com a transparência econômica, atitudes estas que são sinais da Ternura.

                Uma Igreja que como Maria quer ser uma revolucionária da Ternura, pois como diz o Papa Francisco, se o cristão do século XXI não for um revolucionário, não será cristão. Que a Ternura que envolveu a Mãe de Ternura nos faça tão ternos e ternas que sejamos ternura em tempos de tanto ódio, ignorância e intolerância. Que a Ternura que acompanha a Diocese em 95 anos de história continue a ternurizar os corações de todo o Povo de Deus desta Igreja de Bragança. Que o Deus que é Ternura envolva seu pastor, Dom Sérgio, para que continue a conduzir-nos para o Reino definitivo, e que em sua missão o vigor e a ternura não lhe faltem. Que a Ternura envolva o presbitério de nossa Diocese, os conselhos pastorais e econômicos das comunidades paroquiais, as pastorais, os movimentos e os diversos grupos. Que a Imaculada Conceição, em Bragança Paulista, chamada Conceição do Jaguary, interceda por todos nós seus filhos e filhas.


Pe. José Antonio Boareto

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