Educar para a santidade hoje e a importância do acompanhamento e a assessoria específica

POSTADO EM 03 de Maio de 2018

Image title

Por Pe. José Antonio Boareto

Refletindo acerca das impressões que o artigo intitulado "Catolicismo Mofado" do Professor Fernando Altemeyer da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP provocou nas redes sociais é que pretendo oferecer algumas considerações que sejam pertinentes.

Quando lemos em seu artigo que o comportamento observado nas comunidades é a volta de uma Igreja Feudal que destroça a pastoral da igreja comunidade de comunidades e que não se conhece as orientações da CNBB e a pastoral está desvinculada da Palavra de Deus, precisamos antes de partir para uma postura apologética do meu ponto de vista ou do meu grupo considerar tais hipóteses. (cf. artigo "Catolicismo Mofado")

No mesmo artigo ele afirma que esse comportamento reflete uma antropologia doente, mente doente, corpo adestrado e ainda reconhece que há aqueles que seguem cegamente a padres autoritários evidentemente narcisistas. (cf. artigo "Catolicismo Mofado")

Assumindo a postura de pensar sobre essas hipóteses precisamos primeiramente considerar que vivemos numa sociedade vazia de sentido. Essa reflexão foi feita na teologia por Bento XVI que cunhou o conceito de "ditadura do relativismo" e nas ciências sociais e culturais com Zygmunt Bauman através do conceito de "liquidez". Poderíamos ainda reconhecer na mesma perspectiva de pensamento Giddens, Vattimo e Lipovesky.

O processo de secularização que envolveu a mudança de lugar e de poder da religião no Ocidente trouxe muitas consequências. Segundo Max Weber a religião perde o poder central e agora o Estado é quem torna-se o que garante os direitos sociais e mesmo quem outorga o direito cidadão e mesmo humano.

Juntamente com a modernidade a tecnologia em sintonia com o espírito do capitalismo faz um reducionismo antropológico. O ser humano é considerado a partir da referências de útil, produção e consumo. A perspectiva de uma busca e ou mesmo inquietude humana é substituída por uma busca subjetiva de sucesso e realização material.

Com esse esvaziamento do sentido espiritual e mesmo de transcendência o nosso tempo demonstra-se sem perspectivas. Essa pode ser uma hipótese para refletir acerca das motivações que estão tendo as pessoas em buscar vivências em formas religiosas medievais. Chamamos a este processo de "retropia", isto é, a busca por buscar um imaginário do passado para se viver no presente.

Entretanto não podemos deixar de considerar que o artigo do Prof. Altemeyer aponta para uma preocupação que este tipo de comportamento produz, segundo ele, uma antropologia doente.

A partir do Concílio Vaticano II a Igreja assumiu uma atitude de diálogo com a modernidade. A fé cristã se propõe a dialogar com a cultura. A fé coloca-se em diálogo com a ciência. E nesse movimento científico de estudos da própria Sagrada Escritura, utilizando do instrumental da História, Arqueologia, das ciências que em seu conjunto chama-se Exegese houve uma postura de "voltar às fontes", isto é, compreender melhor a pessoa de Jesus e mesmo o movimento da Igreja primitiva considerando o seu contexto vital.

Uma mudança de paradigma ocorre na mentalidade de como a Igreja se entende em relação ao Mundo. Precisamos considerar que a formulação doutrinária da concepção de ser humano era grega. Desde do século V a Igreja assumiu a visão dicotômica de separação corpo e alma. Assim nessa perspectiva o corpo é cárcere da alma e precisa dele se libertar. O mundo é mal e corruptível e somente haverá um novo mundo na eternidade. Esse paradigma durou 15 séculos na Igreja, por isso não é tão fácil conscientizar de um novo paradigma de apenas 60 anos.

O novo paradigma assumido pela Igreja através do Concílio Vaticano II na perspectiva dos estudos científicos é o paradigma semita, isto é, o modo como os judeus em sua antropologia compreendem o mundo, Deus e a si mesmos. Esta perspectiva é um "voltar as fontes". É assumir a compreensão da Revelação Cristã na História e consequentemente na própria cultura onde Ele mesmo se encarnou.

Assim há uma mudança fundamental na perspectiva de compreender, por exemplo, a salvação. Não é mais o paradigma grego que orienta os cristãos na perspectiva de entender a salvação mas o paradigma semita. Neste sentido, não é mais necessário querer salvar somente a alma e desprezar o corpo, pois para a antropologia judaica e que se constata nos textos bíblicos não há separação entre corpo e alma e nem Igreja e Mundo.

A Igreja está no Mundo para ser sinal da salvação. A salvação não é só da alma pessoa mas da pessoa toda. Assim a missão da Igreja que é evangelizar nada mais é que humanizar. O Cristianismo é uma verdadeira ética. Testemunhamos no Mundo o quanto Deus cria, salva, liberta, cura e ama a esse mundo e a nós quando nos empenhamos em agir em caridade para com todos e todas, sobretudo os pobres.

O mundo é bom, Deus o criou maravilhosamente. O mal existe e o pecado está no ser humano, mas o mundo não está totalmente corrompido como também o ser humano. Somos maravilhas de Deus. Somos chamados e chamadas a santidade no hoje da história.

Somos chamados e chamadas a amar o próximo. Somos convidados e convidadas pelo Papa Francisco a colocar a Igreja numa cultura da misericórdia. Já dizia Bento XVI que para atravessar o relativismo é necessário amor.

A insistência do Papa Francisco a esta chamada à santidade a todos nós é um convite a uma educação para a santidade que supere esse paradigma que tem suas bases do gnosticismo e no estoicismo e que não considera a santidade numa perspectiva bíblica e consequentemente numa antropologia que compreenda o ser humano integral.

Por isso a compreensão do que seja viver a santidade hoje tem como referência as bem-aventuranças. Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Bem aventurados os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus.

Faço menção ainda ao conceito "classe média da santidade" pelo Papa Francisco na sua exortação apostólica. De fato, a santidade é isto, santificar-se no dia-a-dia onde você está. Assim cada um procura ser melhor e bom a cada dia sem deixar de buscar fazer o bem ao próximo.

Deste modo faz jus o conceito "antropologia doente" do professor Altemeyer, pois de fato se constata a formação de diversos grupos e movimentos numa perspectiva de uma visão antropológica de separação do corpo e da alma. Contudo, acredito que não se pode apenas repetir a mesma postura separando-os do mundo ou da Igreja.

É aqui que o papel da educação faz-se necessário. Precisamos ensinar essa é nossa missão. Acompanhar processos, como bem explica o Papa Francisco na "Evangelium Gaudium". E ainda contar com a ajuda de especialistas da Psicologia, Teologia, Espiritualidade, enfim, ter verdadeiro cuidado e atenção para com as pessoas, sobretudo, estes irmãos e irmãs que ainda não experimentam a graça de viver a santidade que nos faz sentir um desejo permanente de alegrarmo-nos e exultarmo-nos no Senhor pois somos seus filhos e filhas muito amados e amadas.

Deus vos abençoe!

© Copyright 2018. Desenvolvido por Cúria Online do Brasil