Sepultados com Cristo no Batismo

POSTADO EM 05 de Abril de 2018

Por. Pe. José Antonio Boareto

Sepultados com Ele no Batismo e ressuscitados com Ele mediante a fé no poder de Deus

Nele também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos humanas, mas com a circuncisão feita por Cristo, que é o despojar da carne pecaminosa. 12Isso aconteceu quando fostes sepultados com Ele no batismo, e com Ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. 13E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne; vos deu vida juntamente com Ele, perdoando todos os nossos pecados. (Cl 2,11-13).

Na obra Jesus de Nazaré na segunda parte, o Papa Emérito Bento XVI procura responder e demonstrar como justificar a ressurreição de Jesus para o nosso tempo. Segundo ele não é possível querer compreender a ressurreição dentro dos parâmetros científicos modernos pois numa perspectiva de que a compreensão do que seja real reduza ao que seja possível ser comprovado empiricamente (do ponto de vista das ciências naturais) e ou do contexto histórico e social (do ponto de vista das ciências culturais) não é possível pensar a realidade como transcendente. (Cf. RATZINGER, 2017, p. 243)

A modernidade assumiu que a história é feita pelos homens e eles mesmos são os senhores do seu destino retirando qualquer possibilidade de crer na existência de Deus e ou mesmo que a história seja conduzida por Ele. Entretanto continua para nós sendo válida o que compreendemos como o que significa crer.

Para o Papa Emérito Bento XVI para compreender o que seja crer e assim refletir acerca da ressurreição de Jesus é preciso ler os textos bíblicos, sobretudo, do Novo Testamento à luz do Antigo Testamento. Os evangelhos procuram ir oferecendo respostas à quem é Jesus demonstrando a todo momento que Nele se cumpre o que era dito pelos profetas e na Escritura. As falas de Jesus sempre se relacionam com passagens do Antigo Testamento. (Cf. RATZINGER, 2017, p. 244)

É preciso considerar o contexto histórico (pois Jesus viveu dentro de uma realidade concreta como também apresentado nos próprios evangelhos e encontrado em historiadores da época como Flávio Josefo que em seus escritos fala do movimento do Galileu sofrendo perseguições pelo Império Romano que havia tomado Israel).

Outra chave para interpretar como é que uma comunidade judaica passa a reconhecer no homem crucificado que ele seja o Cristo e mesmo que ele possa ter ressuscitado e que a ressurreição foi uma experiência que ultrapassa a própria compreensão pode ser verificado no encontro com o Ressuscitado em Paulo. A partir daquele encontro com Ele no caminho de Damasco sua vida foi outra. A experiência que viveu Paulo fez com que sua vida a partir de então fosse nova. É Paulo quem primeiro irá elaborar o “Creio”, ou seja, anunciar o Evangelho nada mais é que anunciar o Ressuscitado. Lemos em 1 Cor 15, 1-5:

Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis.
Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.
Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.

O núcleo fundamental da fé cristã é o anúncio do Ressuscitado e a Igreja só tem sentido de existir assim. Nos evangelhos é narrado que antes de Jesus subir à direita do Pai Ele dá aos discípulos uma missão, isto é, ir pelo mundo e anunciar a todos o Evangelho e batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. (Cf. RATZINGER, 2017, p. 225)

A ressurreição de Jesus só pode chegar ao conhecimento das pessoas mediante suas testemunhas. Ele vive no meio de nós, seu Espírito nos habita misteriosamente, mas semelhante a semente de mostarda que contém toda sua grandeza em sua pequenez, assim também acontece com a ressurreição. A fé não se impõe, mas deve ser proposta, e na liberdade, a pessoa acolhe ou não. Da parte de Cristo Ele procura ir suscitando na pessoa o amor para que ela abra cada vez o espírito a Ele morto e ressuscitado e possa aderindo a Ele pelo Batismo viver a vida nova. Viver já como ressuscitado.

Cabe a nós testemunhas da sua ressurreição anunciar ao mundo que Ele está vivo no meio de nós e que a partir dele uma nova realidade se abre para o ser humano, isto é, ele pode estar com Deus em sua vida cotidiana e que sua vida se torna desde já eterna. Somos ressuscitados com Ele, ou seja, nossa vida já participa da vida divina. Se pelo Batismo fomos lavados do pecado original pela graça original então precisamos compreender que se o pecado é abundante a graça é super-ambundante.

Por mais que sintamos que a morte, o mal e o terror pareçam ser maiores que o bem, não o é, pois Cristo Ressuscitado e sua vitória são infinitamente maiores. Que possamos cada vez mais abrir o espírito a Ele para que Ele seja quem age em nossas vidas, Que sejamos Nele uma só comunhão, Que sejamos seu Corpo Místico sendo Igreja e que possamos continuar a salvar (sinal sacramental de salvação) o mundo todo até que toda história se realize.

Não há provas científicas para a ressurreição e as tentativas que há para explicar não passam de explicações científicas que sejam possíveis ser compreendidas hoje. A ressurreição não pode ser comparada a um corpo que foi reanimado pois até mesmo os evangelhos falam que Jesus reanimou pessoas, como é o caso de Lázaro e da filha de Jairo. Contudo não há como negar que houve uma virada cultural em Israel. Algo de muito extraordinário ocorreu. Nenhum grupo judaico iria substituir o “Shabat” pelo Domingo, mudar toda sua concepção de mundo se não houvesse um acontecimento ímpar.

Para o Papa Emérito Bento XVI reconhecer essa virada cultural e perceber como vai sendo elaborada uma interpretação para compreender a fé no ressuscitado pelos Padres no início do Cristianismo é suficiente para entender que se foi elaborando o “Creio” como atitude fundamental de quem reconhecia a presença do “Vivente”.

A fé vem de ouvir a palavra e colocar ela em prática. A fé é resposta a palavra. A fé é dar crédito a palavra. A fé é acreditar e ponto. Que nós também possamos ouvir a palavra e fazer como o próprio Jesus ensina: construir a casa sobre a rocha. Que possamos ouvir a palavra que diz: onde dois estiverem aí estou eu no meio deles, ou ainda ouvir: eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.

Em relação à experiência de encontro com o Ressuscitado podemos fazer como João que mesmo sem ver a Ele quando entrou no sepulcro vazio, acreditou, pois ele crê nas palavras de Jesus, ou melhor, sabe que Ele é a própria Palavra (Logos) e Ele é a Verdade. Podemos ainda fazer como Tomé, isto é, tocar o corpo glorioso do Senhor e dizer-lhe: “Meu Senhor e Meu Deus!”.

Desejo que você encontre o Ressuscitado em sua vida e possa viver já aqui como ressuscitado também. Que possa compreender o Batismo numa dimensão mais profunda de identificação com Ele e dizer como São Paulo: Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.(Gal 2, 20).

Que nos inspire a viver como ressuscitados desde já o testemunho dos santos e das santas. Santo Inácio de Antioquia compreendia muito bem o que significa esta nova dimensão que se abriu para sua vida, ele dizia de si mesmo, sou trigo de Cristo que no martírio me tornarei pão de Cristo. E por fim menciono a fala de Jesus a Santa Faustina por ocasião de uma de suas aparições a ela:

Ouve, minha filha! Embora todas as obras que surgem da Minha vontade estejam sujeitas a grandes sofrimento, reflete se alguma delas esteve sujeita a maiores dificuldades do que a obra diretamente Minha – a obra da Redenção. Não deves preocupar-te demais com as adversidades. O mundo não é tão forte como parece; sua força é estritamente limitada. Deves saber, minha filha, que se a tua alma estiver repleta do fogo do Meu puro amor, então todas as dificuldades sumirão como a neblina perante os raios do sol, e não ousarão importunar uma alma assim. Todos os adversários têm medo de enfrentá-la, porque sentem que essa alma é mais forte que o mundo inteiro... (KOWALSKA, 2015, p. 396)

            Através de sua Paixão Ele continua a nos atrair todos para o seu amor e quer que nós juntamente com Ele ofereçamos ao mundo um sacrifício que seja agradável a Deus. Através da Eucaristia nós comungamos o Seu Corpo e Sangue e deixamos que Ele continue na história a sua Paixão e manifeste a Ressurreição. Sejamos testemunhas do Ressuscitado, Acolhamos o dom da sua presença em nós e deixemos que inflamados o seu Puro Amor em nós sejamos um fogo que acende outros fogos. Que Ele renove em nós tudo que precisa ser renovado. Que Ele nos transforme, Que Ele nos dê a graça de cada vez mais renunciarmos a nós mesmos para que Ele seja Tudo em nós e assim possamos sempre andar nos caminhos do Senhor que é a verdade e o amor.

Em tempos de mentira e ódio como o nosso, urge reconhecer que precisamos abrir o espírito a Cristo morto e ressuscitado para que nos renove, para que elimine do nosso coração o veneno do pecado e da morte e nele infunda a seiva vital do Espírito Santo: a vida divina e eterna (Papa Emérito Bento XVI).

Que encontremos o Ressuscitado que está vivo no meio de nós e nos acompanha pela história. São tantos os modos de perceber sua presença entre nós. No seguimento de Jesus, na atitude necessária de assumir a cruz, coloca-se para nós como exigência oferecer o caminho da verdade e do amor contra a mentira e ódio. Viver a Paixão-Ressurreição de Jesus em nós é assumir Nele o desejo de continuar a amar os Seus até o fim, isto é, enquanto houver vida amar e amar com intensidade, amar como eternidade. Diz C. S.Lewis: Se a cruz que você carrega não te ensina a amar não é a Cruz de Cristo.

Que seja critério de discernimento ouvir a palavra que ensina:

Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê.
Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão.
(1Jo4,20-21)

                O Ressuscitado vive no meio de nós e nos oferece uma nova vida que se vive na verdade e no amor. Anunciemos a verdade do amor de Deus para o mundo. Anunciemos que Ele vive e que seu amor é maior que todo ódio, mal, morte e violência que existe. E que aquele que decide-se por Ele livremente e por amor dá espaço para que Seu Espírito nele atue. E vive como membro da Comunidade do Amor, isto é, membro do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja e através dela realiza sua presença no mundo até que a história se realize plenamente.


            Uma Santa e Feliz Páscoa para você e toda sua comunidade. Que o Espírito do Ressuscitado nos conduza pelos caminhos da História na Verdade e no Amor até a plenitude.

            Deus vos abençoe!

KOWALSKA, Maria Faustina. Diário. A misericórdia na minha alma. 41. Ed. Editora: Apostolado da Divina Misericórdia Curitiba. 2015, 483 p.

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 2. Ed. Editora: Planeta. 2017, 271p.

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