A tradição é viva pela própria natureza, diz D. Fisichella ao comentar alteração no Catecismo

POSTADO EM 04 de AGOSTO de 2018

"A tradição, se não estiver viva, se não for mantida viva por um magistério sempre vivo, como insiste a Dei Verbum, a Constituição Dogmática sobre a Revelação, não é mais a tradição", disse o arcebispo Rino Fisichella ao comentar a modificação sobre a pena de morte introduzida no Catecismo por desejo do Papa Francisco.

Fabio Colagrande - Cidade do Vaticano

nova formulação do Catecismo da Igreja Católica considera inadmissível a pena de morte, introduzida por desejo do Papa Francisco com um Rescrito publicado na quinta-feira, 2, representa "um verdadeiro progresso dogmático".

Quem afirma isso em um artigo publicado no "L'Osservatore Romano" é o arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, o dicastério que tem a competência em matéria de catequese. De acordo com o prelado, o novo conteúdo - embora "em continuidade com o magistério precedente" - mostra como o depósito da fé é preservado, mas ao mesmo tempo progride. Ele falou também ao VaticanNews:

R. - O novo texto do Catecismo mostra um interessante desenvolvimento, porque até o texto precedente – quer o de 92 como o de 97, que era a editio typica – em relação ao tema da pena de morte ainda era admitida a sua possibilidade e legalidade. Agora, pelo contrário, o Papa Francisco - em continuidade com o magistério de João Paulo II e do Papa Bento - concorda em explicitar ulteriormente o argumento, dando mais um passo. E esta passagem, como é dito "à luz do Evangelho", faz compreender que a pena de morte é inadmissível. E, portanto, há palavras claras que não deixam qualquer mal-entendido sobre este ensinamento.

P. - Então podemos falar de um progresso real de um conteúdo de fé?

R. - Absolutamente sim! Sobretudo se isso é considerado no novo contexto que o Papa Francisco apresenta, ou seja, a dignidade da pessoa. Aqui é preciso observar que existe uma mudança do Catecismo. Antes, o objetivo era o de defender as pessoas que, devido a instrumentos ainda não desenvolvidos, poderiam sofrer violência por parte de um agressor. Agora, para a mudança de perspectiva, o objetivo não é mais a defesa das pessoas; não porque isto não permaneça como um princípio fundamental na moral católica, mas como ele é superado pelos novos sistemas também de detenção que têm à disposição os Estados democráticos e não. Agora, a perspectiva é aquela da dignidade da pessoa. O que o Papa Francisco leva a termo é a superação de uma visão restritiva, porque diz que à ninguém pode ser tirada a possibilidade de uma reabilitação, portanto, de uma reintegração, também no tecido social. Isso comporta, obviamente, a capacidade por parte do Estado de favorecer esta dimensão e, portanto, também por parte do culpado - não esqueçamos, quando a autoridade legítima emite uma sentença de condenação à morte significa que há um crime muito grave - deve haver um esforço em reabilitar-se. Isto porque, não obstante o crime gravíssimo, deve haver sempre, nesta visão, uma abertura que é fonte de esperança, precisamente em relação à dignidade de cada pessoa. A possibilidade de começar uma nova vida não pode ser tirada de ninguém. E devemos dizer que, como há tantos exemplos de reincidência no crime, há também muitos exemplos - e agradeçamos ao Senhor por isso! - de conversão, de reabilitação e de reconciliação entre o culpado e as vítimas ou os familiares das vítimas.

D. - Mais genericamente, esta decisão do Papa mostra que manter o depositum fidei não significa, como o senhor escreveu, "mumificá-lo" ...

R. - Absolutamente não! O Papa Francisco havia dito há um ano, naquele encontro organizado pelo Pontifício Conselho para a Nova Evangelização - que, não esqueçamos, é responsável do Catecismo da Igreja Católica e, portanto, também chamado como sua missão específica à promoção do Catecismo, o uso do Catecismo e depois também para se certificar de que o Catecismo, mesmo apresentando a doutrina de sempre, corresponda às novas exigências contemporâneas - naquele discurso, em 11 de outubro do ano passado, o Papa Francisco tinha dito que a tradição não é como um cobertor colocado sob naftalina. A tradição é viva, por sua própria natureza. Este é o ensinamento do Concílio. Esta é também a compreensão da tradição e que a tradição dá de si mesma. Há uma bela expressão inglesa: "fly in ambra” isto é, a tradição não é uma mosca que é inserida no âmbar, nesta resina que a conserva assim. Isso significaria destruir a tradição. A tradição, se não estiver viva, se não for mantida viva por um magistério sempre vivo, como insiste a Dei Verbum, a Constituição Dogmática sobre a Revelação, não é mais a tradição. Portanto, penso que estamos diante de uma consideração notável, importante. Cumpre-se um passo realmente decisivo que ajudará também o empenho dos católicos na vida social e política dos próprios países.



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