Avaliação do semestre no Seminário. Texto, Reitor Pe. José A. Boareto

POSTADO EM 03 de Dezembro de 2018

Caminhando juntos com Jesus sendo mansos e humildes de coração

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Com o sínodo histórico dos jovens, a Igreja retoma um caminho chamado espírito sinodal, o qual consiste numa compreensão de que devemos caminhar juntos. Essa postura de “sinodalidade” pode ser compreendido em três atitudes: escutar, aproximar e testemunhar.

Para o Papa Francisco o futuro precisa ser construído hoje e ele acontece através do encontro intergeracional, isto é, os mais velhos escutando os mais jovens e os mais jovens apreendendo com a sabedoria dos mais velhos. Precisamos de velhos sonhadores para que haja jovens com grandes ideais.

No sínodo houve uma atitude muito nobre por parte dos bispos que como pastores ouviram seu rebanho e ainda colocaram-se em um “silêncio ativo” ouvindo as juventudes que lá estavam representadas. E depois os jovens ouviram o que seus bispos tinham a dizer diante dos desafios que colocaram.

O sínodo apontou para um espírito sinodal com uma atitude mais dialógica que se demonstre no esforço pelo discernimento. Cabe aos bispos e ao clero e muitas vezes aos leigos e as leigas o serviço do acompanhamento dos jovens. O discernimento implica o respeito a liberdade do outro de escolher. Quem orienta deve oferecer condições para discernir. Assim se um jovem escolhe um caminho errado não deve ser expurgado por ter errado, mas simplesmente recomeçar o caminho novamente. Por isso, o espírito sinodal ensina que caminhando juntos é mais fácil acertar do que tentar se aventurar sozinho.

O discernimento considera que a realidade é maior que a idéia e que vamos ao encontro das pessoas reais. Se torna uma urgência encontrar os jovens em sua realidade concreta e a partir daí caminhar com eles. Quem quer caminhar junto precisa ter paciência e mesmo saber suportar situações com caridade. Entretanto, tal pedagógica da misericórdia, é o caminho de Jesus para segui-lo.

Educar para a fé não é impor um conjunto de regras e ou verdades sobre os jovens mas antes testemunhar a eles o quanto somos de Cristo e portanto irradiamos sua luz. Uma vida cada vez mais coerente e transparente é o melhor modo de testemunhar Jesus Cristo aos jovens pois estão à procura de referências.

Os valores cristãos também humanos são mais que conceitos ou idéias mas sim um estilo de vida que se demonstra num comportamento moral que revela uma ética humanista que nos faz capazes por amor a Cristo ser solidários, sobretudo, com os mais pobres.

Ouvimos tantas coisas mas o que paramos para escutar? Que possamos nos aproximar dos jovens e escutá-los e através do nosso testemunho possamos contribuir para que despertem para grandes ideais vendo em nós sonhadores do Reino.

Também cada um de nós possa cultivar cada vez a própria vocação como resposta a um chamado que nos fez o Senhor para ser feliz através de uma vida que existe para o outro. Que possamos crescer no amor a Cristo cada vez mais e também no amor ao próximo. Que possamos crescer no amor próprio, sendo capaz, de cada vez tratar-se com mais cuidado, carinho e atenção consigo mesmo para que da mesma forma tratemos nosso semelhante.

Quanto mais vamos deixando nossa rigidez, sisudez, ignorância, medos, mais vamos tornando-nos dóceis, frágeis, humanos, sensíveis, seguros, capazes de se relacionar com qualquer pessoa.

Que cada um possa crescer na capacidade de discernimento e mesmo possa buscar conselhos para que escutando a voz da consciência onde Deus fala conosco possa iluminado pela Palavra fazer escolhas que levem a prática do bem e a evitar o mal. Rever posturas e mesmo idéias fixas sobre os outros e as coisas pode ser um modo de experimentar a renovação e mesmo transformação de vida que Deus quer realizar segundo seu desígnio de amor.

Em particular um desafio que coloco para que possamos discernir é o clericalismo, o grande mal da Igreja, segundo o Papa Francisco, pois ele não é somente um mal de indivíduos mas está na instituição como um todo. O clericalismo demonstra-se como abuso de poder espiritual que infere sobre as realidades temporais e muitas vezes acarretam em injustiças contra membros da Igreja, como é o caso da pedofilia, que se trata de um abuso de poder além de ser uma violência contra os menores.

O clericalismo também atinge leigos e leigas e se revela como abuso de poder destes também. O modo como se reconhece a postura clericalista é o farisaísmo. Sua autoridade não é questionada e ainda colocando-se como dono da verdade impõe sobre o outro o seu domínio e faz uma leitura distorcida da realidade pois a pensa a partir da dicotomia, isto é, ao considerar-se como sagrado nivela os outros como profano e mesmo os desqualifica e inferioriza. Assim as posturas clericalistas são um dano para a vida da comunidade eclesial num todo.

Há uma inversão da compreensão de autoridade religiosa. O poder espiritual é para servir e não impor. Numa pesquisa encomendada pela Diocese de Bragança Paulista em 2010 sobre qual era o maior desafio das comunidades e mesmo qual seria a uma solução viável para resolvê-la a resposta foi: a acolhida.

Não são poucas as interlocuções do Papa Francisco a respeito do clericalismo como também sua crítica ao espírito principesco que se estabelece na Igreja como uma cultura imperial. Por isso, quero terminar essa reflexão considerando o esforço que temos feito no sentido de ajudar vocês a pensarem sobre a importância de serem “pastores com cheiro de ovelhas”, com um coração cada vez mais configurado ao de Jesus que é manso e humilde.

Acreditamos que essas duas palavras resumem o que se espera de um presbítero enquanto estilo de vida pastoral, isto é, que ele seja manso, capaz de acolher a qualquer pessoa, ir ao encontro da realidade e das pessoas concretas, capaz de escutá-la, dialogar com ela por meio da proximidade e com ela caminhar testemunhando Jesus Cristo.

Que seja humilde, isto não significa ser tonto dos outros e ou mesmo se inferiorizar perante qualquer autoridade constituída. Dar-se o respeito para ser respeitado é a atitude mais digna que existe entre uma pessoa e outra, isto é postura nobre. A humildade é a capacidade de reconhecer-se um igual ao outro independente de sua condição econômica, intelectual, espiritual, etc.

A humildade é atitude de quem age com simplicidade, e mesmo busca um estilo de vida mais simples, como também procura viver com maior transparência e por isso mesmo comprometido com a justiça e paz através de uma cultura da misericórdia e da solidariedade preferencialmente pelos mais pobres compreendendo como exigência evangélica e portanto exigência da fé cristã.

Uma pessoa mansa e humilde não irá prejudicar ninguém e muito menos tem em seu coração ambição e ganância a não ser grandes ideais que o movam à sua realização vocacional. Neste sentido, faz-se importante reconhecer o quanto é importante almejar e buscar ser melhor para mais servir e ajudar, como forma de demonstrar o quanto o outro é importante, o quanto eu quero crescer, amadurecer, me formar, conhecer, ampliar meu conhecimento, para poder ser melhor pastor, para poder através do meu sacerdócio contribuir para o crescimento do povo de Deus e de mim mesmo, para ser melhor ser humano, para ser mais gente.

E nesse caminho não pode faltar uma perspectiva de querer conhecer para mais amar e mesmo ir superando preconceitos, digo isto, seja em relação a culturas diversas, seja isto em relação à própria Igreja em sua perspectiva ecumênica e de diálogo inter-religioso.

E nas coisas mais simples mas fundamentais do dia-a-dia tenhamos a humildade de reconhecer quando erramos e a capacidade de pedir perdão e dar o perdão.


Quanto menos mais, menos arrogância mais leveza, menos autoritarismo mais acolhida, menos sisudez mais alegria no rosto, menos orgulho mais proximidade, menos medo mais confiança, menos riqueza material mais pobreza espiritual, menos fechamento mais abertura. Menos dureza mais mansidão, menos desconfiança mais segurança em si mesmo, menos prepotência mais humildade.

Termino o ano dando graças a Deus por demonstrar tanta misericórdia para com esta casa de formação. Vamos em espírito de sinodalidade aprendendo uns com os outros a seguir a Jesus nesta vocação à que Ele nos chamou para sermos seus animadores à frente das comunidades e dos grupos aos quais Ele nos confiar para evangelizar como também aos lugares onde Ele nos enviar.

Que possamos crescer cada vez mais na comunhão entre nós, respeitando nossas diferenças, suportando nossos próprios limites e assim aprendendo a suportar o dos outros, e assim trabalhar juntos como futuro presbitério da Diocese de Bragança Paulista para o bem do Povo de Deus.

Que a Imaculada Conceição, nossa mãe querida nos ajude a viver cada vez mais irmanados pois ela nos acolhe a todos seus filhos queridos e nos quer unidos. Cada vez mais unidos para juntos sermos mais a serviço do Povo de Deus. Que possamos nos aproximar dos presbíteros idosos e apreender deles a sabedoria acumulada pela experiência de vida e também ser uma presença amiga e irmã junto deles. Que possamos nos aproximar e mesmo nos envolver com os pobres não oferecendo só uma assistência emergente mas uma “atenção amiga” como nos desafiou o Papa Francisco neste II Dia Mundial dos Pobres.

Sendo manso e humilde de coração estaremos no caminho de Jesus e o nosso coração cada vez mais se configurando ao Dele e assim num estilo de vida pastoral poderemos ir vivenciando mais entre nós o Reino de Deus pois este é o caminho da bem-aventurança da pobreza maior que devemos almejar: Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos céus. Caminhemos juntos para cada vez sermos nada e assim Ele poder ser tudo em nós.

A quem tem Deus nada falta só Deus basta. Que nos esvaziemos cada vez mais para que Ele possa nos encher só de Dele. Inspire-nos São João Paulo II que nos ensina que o amor lhe explicou tudo e mesmo que não há pior prisão do que um coração fechado. E ou ainda o querido Maximiliano Kolbe: ama, isso é tudo! Caminhemos juntos com Jesus aprendendo Dele à sermos mansos e humildes de coração.


Pe. José Antonio Boareto

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