ORDINARY LOVE

POSTADO EM 02 de Janeiro de 2017

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Por: Pe. José Antonio Boareto


            No dia 30 de abril de 2016, o guitarrista da banda irlandesa U2 David Howell Evans, o The Edge se apresentou na Capela Sistina no encerramento de um congresso sobre medicina regenerativa. Ele foi o primeiro roqueiro a tocar sob os afrescos de Michelangelo.

            Entre as canções que apresentou, “Ordinary Love” (Amor Simples) estava no repertório. Esta canção foi escrita com o propósito de homenagear Nelson Mandela. A canção foi lançada em 29 de novembro de 2013, a menos de uma semana antes do falecimento de Mandela.

            A história da África do Sul é a história de Mandela e sua luta contra a segregação racial e a favor da democracia e os direitos humanos. Com “Amor Simples” ele foi capaz de ser um grande líder rebelde e lutar contra o apartheid.

            Ouvimos nessa canção: Are we tought enough for ordinary love? (Somos fortes o suficiente para um amor simples?) E a resposta a esta pergunta: We can’t fall any further if we can’t feel ordinary love and we cannot reach any higher if we can’t deal with ordinary love. (Não podemos mais nos apaixonar se não podemos sentir um amor simples e não podemos alcançar outro nível se não podemos lidar com um simples amor).

            Somos chamados a um “amor simples”, mas o que é “amor simples”? Porque The Edge cantou essa canção no Vaticano? Durante este ano, a Igreja no mundo inteiro viveu o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Fomos chamados a descobrir que a misericórdia é o nome de Deus. Compreender que a essência do Cristianismo é o Amor.

            Em Jesus o rosto misericordioso do Pai se revela e Deus se mostra cheio de amor, compaixão e jamais indiferente ao sofrimento. Na Carta Apostólica Misericordia et misera, o Papa Francisco diz: “Querer estar perto de Cristo exige fazer-se próximo dos irmãos, nada é mais agradável ao Pai do que um sinal concreto de misericórdia”. (n. 16).

            Continua o Papa Francisco: “A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne (cf. Ez 36,26), capaz de amar, não obstante o seu pecado.

Nisto se nota que somos verdadeiramente uma “nova criação” (Gal 6,15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui “misericordiado” e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia”. (n. 16).

            A misericórdia tem um valor social que nos impede de ficarmos indiferentes ao sofrimento dos pobres e excluídos. Somos chamados a fazer crescer uma cultura da misericórdia com base na redescoberta do encontro com os outros. (cf. n. 19-20).

             A cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres. (cf. n. 20).

            Este é o tempo da misericórdia assim termina o Papa Francisco sua Carta Apostólica e ainda para marcar significativamente este tempo convida a Igreja a celebrar no XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres.

            Diz o Papa Francisco: “Será a mais digna preparação para bem viver a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia. (Cf. Mt 25, 31-46).” (n. 21)

            Amor simples é a vocação que Deus deu ao ser humano para que pudesse cultivar e guardar a criação (Gn 2,15). Sem o devido cuidado com esta Casa Comum que é de responsabilidade de todos iremos perecer.

A partir de uma leitura atenta da encíclica social do Papa Francisco “Laudato Si” a Igreja no Brasil nos chama a reflexão para o cuidado com os nossos ecossistemas, os biomas brasileiros.

É nessa visão ecológica que somos chamados a compreender a profundidade do sentido do que seja a misericórdia, o amor e a ternura de Deus. Contemplar as maravilhas da Criação e cuidar com ternura de tudo o que existe.

A crise que o mundo vive é sócio-ambiental, pois, a terra é um organismo vivo composto de um meio-ambiente, no qual seres humanos e natureza interagem e interdependem.

            Por causa de interesses espúrios de governos, corporações e outros grupos sofrem os pobres aos quais são negados os direitos fundamentais de terra, teto, saneamento básico, educação, trabalho e saúde.

            A violência é uma realidade constante no cenário global. Vivemos uma guerra em pedaços. Alguns países se transformaram em verdadeiro campo de guerra e os cidadãos e cidadãs desses lugares precisam migrar procurando refúgio em pátrias alheias.

            O Cristianismo pode e tem um papel, ou melhor, por própria vocação e missão tem uma obrigatoriedade evangélica em relação ao mundo. Anunciar Jesus Cristo como Redentor de todo ser humano e comunicar o amor salvífico oferecido por Ele que também é libertador e integrador.

            Comunicar com a palavra e a vida esse “amor simples” é o que devemos fazer. Convidar a todos e todas a fazerem essa experiência do amor de Deus que não excluí ninguém.

            Para isto ocorrer, precisamos, ser simples, ter um “amor simples” capaz de amar a todas as pessoas sem fazer distinção. Ser capaz mais de abraçar e acolher que apontar e julgar. Ser capaz de maior ternura que agir com rigidez.

            Os cristãos podem e devem descobrir que entre eles por mais que sejam de igrejas diferentes o amor por Jesus é o que os une. O que podemos fazer em nome desse amor?

            Em relação às outras religiões podemos reconhecer que cada um a sua maneira busca a Deus, mas o mais fundamental é que somos todos filhos e filhas do mesmo Deus Pai.

            Até mesmo com aqueles que se dizem ateus, juntos e com eles testemunhemos a fé pois ela opera pela Caridade. Eles estão em busca da Verdade, portanto, em busca do Bem, inconscientemente, podemos assim dizer, buscam a Deus, mas Deus se antecipa e chega primeiro, pois está com eles também embora não reconheçam sua presença.

            Na experiência de São João Evangelista, o discípulo amado de Jesus, ele nos diz que ouviu, viu e tocou a Palavra da Vida que é Jesus. João abriu-se a uma experiência de fé e amizade com o Senhor que transformou a sua vida.

            Ele dirá em outra ocasião comunicando a nós quem é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós: Ele é Amor, Deus é Amor. (1 Jo 4,8).

            A Igreja tem feito um caminho de abertura à docilidade do Espírito Santo. O Espírito chama-a a se renovar no fogo do Amor. É o Espírito que conduz a Igreja para o caminho da caridade. O verdadeiro poder é o serviço que oferecemos ao mundo como presença misericordiosa de Deus.

            Neste sentido, temos sentido o quanto nossas comunidades estão se tornando comunidade do Amor, reflexo da comunhão trinitária, no qual não há solidão mas amor em comunhão e participação.

            Comunidades missionárias que procuram testemunhar a misericórdia de Deus no mundo. É hora de envolver mais gente, é hora de dialogar com a sociedade, é hora de aproximar da modernidade.

            O momento histórico sugere que construir pontes é melhor que levantar muros. E pelo visto não será pelo poder político que isto irá ocorrer, mas a Igreja que tem um “amor simples” para oferecer ao mundo, pode através dos milhares de cristãos e cristãs no mundo, onde estão, serem aí construtores de pontes.

            Numa entrevista que o Papa Francisco deu ao semanal católico belga Tertio no dia 07/12 ao comentar sobre os sacerdotes ele disse: “Não tenham vergonha da ternura. Hoje se necessita de uma revolução da ternura neste mundo que sofre de cardioesclerose”.

            Sejamos padres revolucionários da ternura, mas também o sejam os jovens. Na abertura da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia foi lançado o DOCAT (Como agir?) que aborda a Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem acessível.

            Além do DOCAT ele deu ao jovens o DOCATapp para dar início a uma campanha juvenil à escala global. Uma proposta para os jovens se colocarem em movimento. Desafia o Papa: “Ponde-vos, portanto, vós mesmos em movimento. Se muitos colaborarem nesta ação comum, então as coisas irão melhorar neste mundo e os homens poderão sentir que o Espírito de Deus age através de vós”.

            Continua o Papa: “Com a força do Evangelho, podemos mudar realmente o mundo”(...)”Eu espero que um milhão de jovens, mais ainda, que uma geração inteira seja, para os seus contemporâneos, uma Doutrina Social em movimento”,(...) “o mundo só mudará quando homens com Jesus se entregarem por Ele, com Ele forem as periferias e para o meio da miséria”.

            O Papa desafia os jovens a irem para a política e a lutar pela justiça e dignidade humana, sobretudo dos mais pobres. Diz ainda: “Um cristão que não seja revolucionário neste tempo, não é cristão”.

            O Espírito sopra onde quer, e podemos afirmar, Ele conduz a História. O que ouvimos através do Papa Francisco convocando os jovens a uma revolução da ternura percebe-se por meio de outros meios.

            Igrejas, ONGs, Movimentos Sociais, artistas, intelectuais, acadêmicos e tantos outros estão a comunicar ao mundo sua mensagem de que vivemos numa Casa Comum, que todos habitamos o mesmo espaço e precisamos conviver e para tanto é preciso lutar para que haja mais justiça e igualdade, a dignidade humana e a natureza sejam respeitadas. A pobreza e a miséria superadas.

            Banksy é o pseudônimo de um artista pintor de graffiti. Suas obras são carregadas de conteúdo social expondo claramente uma visão total de aversão aos conceitos de autoridade e poder. Suas obras podem ser encontradas em diversos muros de cidades pelo mundo. Ele também procura comunicar um “amor simples” com sua arte.

            Está chegando 2017 e meu jeito de te dizer Feliz Ano Novo, saúde e paz em sua vida é seja revolucionário, seja revolucionária da ternura. Sejamos fortes o suficiente para nos apaixonar e mesmo passar para outro nível de maior solidariedade, compaixão e misericórdia por causa de um amor simples.

           

           

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