Sobre a Morte

POSTADO EM 17 de Novembro de 2017

SOBRE A MORTE


Por Monsenhor Giovanni


Por ocasião do Dia de Finados, de certa forma, muita gente para diante do recordar parentes e amigos que já não fazem parte do nosso dia a dia. No muito que se pensa e se fala nesse dia, alguém me questionava sobre as críticas feitas às famosas frases ditas em nossos velórios: “Vontade de Deus”, “Deus quis assim”, “Já tinha cumprido sua missão”, “Era tão bom que Deus levou” e outras mais. Fiz e faço ressalva. Tenho certeza que essas manifestações vão em direção à busca de consolação e de uma tentativa de explicação do porquê da morte.

Embora saibamos que nossa vida terá um término, apesar da fé que professemos numa vida além da morte, as interrogações subsistem. Afinal a morte não deixa de ser um mistério. Corro o risco de ser repetitivo: mistério é a tradução portuguesa da palavra grega “mistérion” que significa “sinal”. O sinal é uma realidade que podemos tocar, fazer, manusear. Mas é apenas um tatear numa realidade que é muito maior. Portanto nossas palavras e nossas reflexões são inexoravelmente limitadas. E nós não nos conformamos com isso! Queremos tomar conta do mistério. Isso nos daria todas as respostas. E nos livraria dos questionamentos.

A realidade do dia a dia, contudo, nos mostra que o caminhar se faz tateando. Caindo. Levantando. Alegres. Tristes. Saudosos. Esquecidos. Recordando e recordados. Não há outro modo de viver por aqui.

Com isso, como fica a vivência da fé dos cristãos numa vida após a morte? Que certezas podemos ter? Como encarar a perda dos que amamos? E a nossa própria morte? Não são questões fáceis. Mesmo porque somos marcados pelas nossas contingências e emoções.

É importante recordar que não seria humano enfrentar o fato da morte desvestindo-nos dos nossos sentimentos. A reflexão que faço quer ser ajuda para que os sentimentos possam encontrar porto seguro.

Creio que a fé cristã proporciona isso. Esta fé se baseia na Ressurreição de Jesus Cristo. Sem esse acontecimento o cristianismo seria vazio. Ao aderir a Jesus Cristo faz-se uma escolha por quem está vivo. Cremos que Ele morreu e ressuscitou. Ao lado desse fato o cristão crê que Deus é Pai. E nenhum pai cria filhos para a morte. Para a tradição bíblica a morte não tem origem em Deus. Deus quer a vida.

Não cabe dizer, portanto, quando alguém morre que era a vontade de Deus, etc. Cabe ter a consciência que o morrer é um dado condicionante da existência terrena. E morreremos todos. De diversas maneiras. Mais cedo ou mais tarde. Não porque Deus determinou. Mas porque é do existir natural chegar ao fim. Esgotadas todas as reservas do ser vivo ele fenece.

Para o ser humano, todavia, Deus deu uma vocação substancialmente diversa do restante da criação: sua imagem e semelhança. Sua eternidade. Morrendo viveremos. Deus nos amou de tal forma que na morte no tempo nos dá a eternidade. Todo o cristão sabe disso. O saber, porém, é vivido em nossa fragilidade. Por isso buscamos palavras nossas para expressar algo que escapa à nossa possibilidade de cotejar saber-sentir-expressar. Nossas palavras e conceitos pobres tentam explicitar uma fé que é vivida nos condicionamentos das nossas emoções.

Tenhamos certezas: ninguém morre porque Deus quis. Ninguém morre porque era tão bom que já não tinha mais o que fazer por aqui. Ninguém morre porque era a hora. Nossa morte está na linha do horizonte do factível. As circunstâncias de nossa vida, de nossa saúde, do ambiente em que estamos, das profissões que exercemos, dos riscos a que nos submetemos ou somos submetidos, do tempo que passa, isso é que marca nossos passos para o fim de existência terrena. Mas sendo isso certo, olhamos sempre com serenidade e esperança.

O passo incompleto aqui será o salto para a perfeição da Casa do Pai. Isso nos deve encorajar.

Trememos sim. Mas há um abraço seguro à nossa espera!     

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