CRISTÃO AZEDO?

POSTADO EM 10 de Outubro de 2017

Por Monsenhor Giovanni

José Saramago, escritor português que se dizia ateu, afirmava que no dia em que visse cristãos católicos saindo das igrejas com o rosto alegre por terem recebido o Cristo na Eucaristia ele teria um forte argumento para começar a buscar a fé.

Está certo que a sua assertiva caminhava na linha da certeza para crer (um pouco São Tomé!). Saramago desejava uma evidencia tangível para mudar seu modo de enxergar a fé religiosa.

E nós sabemos que “a fé é um modo de já possuir o que se espera, um meio de conhecer as realidades que não se veem” como é ensinado na magistral Carta aos Hebreus no capítulo 11. E que recomendo para uma boa meditação nestes tempos de liquidez!

Saramago me incitou a refletir sobre a falta de alegria e serenidade que atinge muitos crentes. Sua provocação me veio à mente por conta de um trecho da Carta de Paulo aos Filipenses (4,6-9) e das comparações de Isaías (5,1-7) e a que Mateus traz no seu Evangelho (21,33-43). No escrito aos cidadãos filipenses, Paulo exorta a comunidade cristã a ser alegre, sempre alegre e a ocupar-se com “o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou de qualquer modo mereça louvor”. Se quiséssemos dissecar cada um desses termos teríamos uma visão imediata que, muitas vezes, fazemos exatamente o contrário: ocupamo-nos com a mentira, com o que é baixeza, com o modo injusto de ser, com que é atitude de violência, etc. E é claro que os frutos só podem ser azedos e amargos.

Na mesma direção vão as palavras do profeta Isaías e de Jesus no Evangelho de Mateus. Os dois textos fazem crítica ao povo de Israel usando a plantação de uva como figura. Em Isaías se apresenta o agricultor que prepara a terra, em melhor lugar, compra cepas das mãos nobres uvas.

Canta o cuidadoso gesto e espera, no tempo da colheita, as excelentes uvas para fazer o vinho. Decepção! Aparecem uvas azedas! A decepção leva à cólera. Esta à destruição da vinha descrita com imagens fortes: derrubar cercas, deixar os animais pisotearem e pastarem, arrasar tudo.

A lição da comparação de Isaías quer lembrar às pessoas do seu tempo que Israel era a vinha amada do Senhor e, apesar do cuidado de seu Deus, esse povo só deu frutos ruins. Consequência: o que não presta se joga fora! Jesus fala da vinha como um lugar onde o dono confia a trabalhadores a expectativa dos frutos. Estes ou foram preguiçosos e não tinham frutos s dar ou, levados pela ganância, tentaram usurpar o que não era seu.

A crítica de Jesus segue a visão de Isaías: longe de corresponder à confiança de quem lhes entregou a plantação os arrendatários matam que veio buscar o resultado da colheita (os profetas e o Filho do Dono da Vinha!). Os doutores da Lei apresentam à pergunta de Jesus sobre o que se esperaria, a mesma solução de Isaías: destruição! Jesus vai em outra direção: a vinha não será destruída, será entregue a outros trabalhadores. Jesus afirma que, uma vez que Israel não foi fiel a seu Deus, o Reino será aberto àqueles que eram considerados “cães”, os pagãos!

Tanto Isaías como Jesus foram perseguidos por conta de suas afirmações. E, certamente, é o que acontece a todo aquele que crê e quer dar frutos e ou cuidar da vinha. Termino estas linhas para, lembrando Paulo, falar de um acontecimento que nos leva a ver o honroso, amável, digno e virtuoso.

Refiro-me ao gesto heroico da professora da creche de Janaúba que morreu porque arriscou sua vida para salvar o maior número de criancinhas que pudesse! Este gesto, trise na circunstância, faz forte a esperança que o Bem ainda está presente! E por pessoas como essa mártir não podemos renunciar a alegria que se traduz como serenidade para enfrentar as dificuldades.

E que a fé deve ficar estampada no rosto de todos os que creem no Senhor. Para que os “saramagos” que existem possam ter a certeza de que os que creem sabem em quem creem e procuram levar isso a sério!

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