Trasfiguração que compromete
Por Monsenhor Giovanni Barrese
A liturgia católica insere o texto evangélico (neste ano (Mateus. 17,1-8) sobrea Transfiguração de Jesus, no segundo domingodo tempo da Quaresma.Marcos e Lucas também narram esse acontecimento. Jesus chamaPedro, Tiago e João e vai com eles para uma “alta”montanha (Mateuse Marcos), à montanha, paraLucas. A tradição falado belo monteTabor, coberto de pinheiros,carvalhos e terebintos. Um monteisolado no centro de uma grande planície verdejante.Raridade naquelas paragens.
Segundo relatos antigos no topo da montanhahavia um altaronde eram oferecidos sacrifícios às divindadespagãs. Hoje é um lugarpara meditaçãoe recolhimento para os cristãos. Há uma bela igreja e duas pequenas capelasdedicadas a Moisés e Elias. Nesse monteos evangelistas descrevem uma experiência únicae fascinante vividapelos trêsescolhidos. Na linguagem colorida dossemitas eles apresentam o resultado deum momento único dos três apóstolos comJesus. Isso leva ao fascínio que faz Pedro dizer que seria bom fazer tendas: uma para Jesus, umapara Moisés e outra para Elias. Ele queria perpetuar aquelemomento.
As tendas recordavam a grande festa doencerramento das colheitas. Festa de semanainteira. O povoconstruía as cabanas pararecordar o tempodo deserto. Festa e recordação voltadas para o futuro: os rabinos ensinavam quena época do Messias a vidaseria uma permanente “Festa das Tendas”!Para Pedro, tendo visto o que acontecia lá no altoda montanha, tinha chegadoo tempo do descansoe da festa perene.Esquece os que estavam no pé do monte. Esquece famílias, amigos.
O fascíniopelo esplendor que envolve Jesus é uma forma dos evangelistasmostrarem a tentação de verem Jesus a glóriaque nãopassa pelacruz.
Sabemos quea compreensão de quemera Jesus - quetipo de “Messias”ele era,o caminho da doaçãode sua vida,a cruz - só veio após a ressurreição. Afinal como podia aquele Jesus que faziasurgir pão e peixe para todos, que curava os leprosos, que ressuscitava osmortos, que calava os doutores passar pelos tormentos, pela prisão, peloachincalhe?
Na lição dos evangelistas está presentea afirmativa de que o Jesus, que se revela glorioso, é aqueleque lavará os pés dos discípulos! Queterá a sorte dos malfeitores!Uma lição paraque seusseguidores aprendessem qual era o caminho. Segui-lo na glóriaseria resultado de doaçãoda própria vida.Segui-lo na glória seria resultado de cruzassumida todos os dias.Era necessárioter clarezasobre esseseguimento para que nãohouvesse a tentação do poderdos “amigos do rei”!Uma tentação vividapelos apóstolos.
Tenho certeza quenão é difícilfascinar-se pelo Cristoglorioso. Aliás, devemos fascinar-nos por Ele. Ele é a razãoda nossa esperança! A sua glória é garantia de nossaeternidade! É, todavia,fundamental, queesse fascínioseja o motivador do seguimento queexige de todos nós continuada conversão.E inserção na suamissão.
O Cristoda glória nosatrai para quenossa vidaseja a expressão presentedaquilo que Eledisse e fez enquanto estava entre nós. Correr para o Cristo gloriosonegando o Cristo da cruzé falsear a fé.Parar no Cristoda cruz é nãoter esperança.O Cristo da cruznos recorda queé o caminho da doaçãode si mesmoque manifestaaquilo queDeus é: amortransbordante! E comosomos filhos de Deusé isso quedevemos manifestar. O Cristoglorioso mostraaquilo quesomos quando o amoré a realidade de nossas vidas!A liturgia da Palavra dominical coloca os textos do Gênesis (12,1-4a) e dasegunda carta de São Paulo a Timóteo (1,8b-10) como molduras ao textoevangélico da transfiguração.
A intenção é fundamentar nosso seguimento deJesus na certeza de que Deus é sempre fiel às suas promessas (Vocação deAbraão). A prisão, a tortura, a perseguição, as incompreensões encontram suasuperação na certeza de que anunciar Jesus é dom de Deus, sua graça. E nisso seencontrarão as forças para superar as limitações que o seguir Jesus acarreta.Lá onde o homem vê esgotarem suas esperanças, brilha a certeza do amorincansável de Deus. Isso deve despertar no coração humano a perseverança à qualPaulo exorta a Timóteo. Nada nos deve separar do seguimento de Jesus.
Estetempo quaresmal, enriquecido pela provocação da Campanha da Fraternidade, quenos chama, mais uma vez, a cuidar da Vida da Criação nos ajude a purificar palavras eatitudes. Que o horizonte de nossasesperanças não se detenha no uso insensato dos bens da Natureza, mas sim aosdons que Deus nos dá usados com coração generoso e fraterno! A transfiguraçãoque se refletiu no rosto de Jesus, na consciência daentrega de sua vida, nos fará aprender a entregar também a nossa vida. E nosajudará a não esquecer aqueles que ficaram na planície, à espera da BoaNotícia. Com isso a transfiguraçãonos envolverá! E as tendasda alegria, sinal Daquele quevive, serão moradas para todos!