Ave Maria
por: Pe. Francisco Gilson de Souza Lima
“O anjo Gabriel foi enviado por Deus” (Lc 1,26). Quando assim lemos na Sagrada Escritura logo nos é revelado que a força de Deus visita mais uma vez a humanidade; é a esperança da Salvação que se anuncia e espera ser acolhida, isso porque Gabriel é sinal do esplendor e da força do Senhor que, com seu favor, levanta-nos a cabeça (cf. Sl 89,18). Desse modo compreendemos que “para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37): seu braço forte e Santo mais uma vez se levanta para agraciar a humanidade e, com uma nova esperança de aliança, como a que se fez com os antigos Patriarcas e profetas, deseja manifestar a vida em abundância.
“Alegra-te cheia de graça” (Lc 1,28) – Ave Maria, cheia de graça. Observamos que o anjo não diz que Maria será agraciada, mas que a saúda como já, em presente realidade, cheia de graça, diante de Deus. Compreendemos que Maria não poderia ser a graça em si, já que todas as criaturas recebem Graça da Presença de Deus, que repousou sobre toda a sua criação (Cf. Gn 2,2-3). Assim, a saudação do anjo expressa íntima relação entre Deus e sua serva. De tal modo Maria acolheu a presença de Deus, que repousou sobre ela, a ponto de que se encher por completo daquele mais profundo “socorro gratuito de Deus” para responder ao seu convite: participar da natureza divina. Participar é tomar parte, e não se endeusar. Se compreendemos que a Antiga Eva também tinha sobre si o repouso divino, o que difere uma da outra é o amor-comunhão e a entrega total para ser Sua serva.
“O Senhor está contigo” (Lc 1,28) – O Senhor é convosco. Essa expressão do anjo apresenta, em si, uma correspondência: Deus que se deu a conhecer à Maria e ela, por sua vez, O respondeu com sua vida, a ponto de viver somente para Ele e n’Ele, sem reservas. “Encontraste graça junto de Deus” (Lc 1,30). Por que será que Maria foi agraciada? Ora só poder ser agraciado quem acolhe a graça. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). Isso é o que faz a diferença na vida de qualquer ser humano. Maria não é uma deusa ou uma super-humana, mas uma pessoa como nós, sujeita a todos os acidentes da vida humana. O que a fez se destacar não foi outra coisa senão a sua extrema vivência de Deus (ou em Deus), e a resposta de sua vida como despojamento para que Ele laborasse sobre ela. Por isso afirma: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). A intimidade com Deus é sempre um prólogo para a festa messiânica.
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1,42) – Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus!. Essa exclamação de Isabel, depois de João ter estremecido em seu ventre, manifesta a alegria sobre as boas novas do Senhor: a novidade que se realiza no ventre de Maria, motivo pelo qual sua prima reconheceu ser Maria abençoada, destina-se a todos as criaturas, mesmo que seja no ventre materno. Com efeito, Jesus é Senhor de todas as realidades (cf. Fl 2,9-11).
“Santa Maria, Mãe de Deus”. Aprouve à Igreja continuar a apresentação de Maria como aquela mulher que viveu inteiramente para Deus, do seu imaculado nascimento à consagração de sua vida ao Filho, acompanhando-o em todos os caminhos e se deixando salvar por Ele; e por isso Santa porque se abandonou em Deus, permitindo que ele realizasse seu projeto primeiro: “serei vosso Deus e vós sereis o meu povo” (cf. Ex 6,7; Jr 32,38). Assunta ao céu, não manifesta outra realidade a não ser a ação de Deus em favor de toda a humanidade, da qual ela é sinal da beata vita: vida que alcança a felicidade quando se entrega por inteira àquele que nos amou primeiro. Mãe de Deus porque Cristo é verdadeiramente Deus.
“Rogai por nós, pecadores”. Quem poderá nos valer melhor diante do Santo dos Santos se não aquela viveu em sua própria carne a santidade? Ela, humana como nós, alcance, por sua santidade, o que não conseguimos em nossos pecados, como naquelas bodas benditas onde ela, com carinho maternal, antecipou o início dos Sinais como fruto de sua total obediência e submissão: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
“Agora e na hora de nossa morte”. Ora, se somos o Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12, 12-27) e Cristo não está morto (cf. Lc 24,60, pois o seu corpo foi ressuscitado e já não morre (cf. Rm 6,3-11), os fiéis falecidos estão vivos em Cristo. O Apóstolo nos diz: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,13-14). Se aquela Bem-Aventurada mulher alcançou a Salvação pela fé, então a fé não é vã. E se não é vã, estamos salvos de uma vez por todas em Cristo. E para que nossa vontade não seja errônea na hora na morte e não escolha viver na ausência eterna de Deus, clamamos o auxílio daquela que viveu toda sua vida diante Dele: ajuda-me mãe a não fugir de meu Pai, e de meu Irmão, e viver no Amor.
E dizemos Amém, afirmando que o desejo mais profundo de nossa alma não é contrário ao do Pai criador: Amém, assim seja, faça-se a tua vontade e não a minha.
Que a Virgem Aparecida nos guarde e os Santos Evangelhos sejam sempre a luz de nossos passos, pelos séculos dos séculos.