As Mudanças de Padres
Por. Monsenhor Giovanni Barrese
Háquase nove anos, quando da minha ida para a paróquia São João Batista emAtibaia, escrevi sobre a questão das transferências de padres que aconteceramna diocese de Bragança Paulista. Se bem me recordo foram perto de 28 transferências. Nas comunidade sparoquiais sentiu-se certo descontentamento. Aqui e ali surgiram diferentesmanifestações de apreço pelos padres e de não compreensão pela suatransferência.
Procurei dar um panorama de como é a praxe do governo da Igrejae a forma como as medidas foram determinadas. Mostrei os aspectos jurídicos e,também, a sua execução. Vou retomar o assunto e procurar clarear um pouco maisa situação a partir das mudanças que ocorrerão no final deste ano e início dopróximo.
Creio que é muitíssimo bom que as comunidades não tenham gostado dapróxima saída dos seus pastores. Sinal que estavam exercendo bem seuministério. Seria ruim se a manifestação fosse de alegria e alívio! Deixando isso de lado vamos ao fundamento da questão.
O padre é chamado do meio do povopara servir a esse mesmo povo como ponte para Deus. Ele é aquele que“pontifica”, que faz ponte. Uma das marcas da vocação presbiteral é a renúncia. Presente em muitas outras vocações. Não é privilégio de padre renunciar. Mas é uma das exigências do caminho sacerdotal.
Ao aceitar o chamado, nos tempos dainfância (na minha época) ou da juventude, o seminarista faz uma primeirarenúncia que é a de deixar o convívio normal da sua família para encaminhar-seà casa de formação ou seminário. Exemplifico com a minha pobre história. Minhaprimeira renúncia foi aos 10 anos. Com essa idade pedi para ir para o seminário. Os tempos de seminário foram inesquecíveis, mas a disciplina e aconvivência com mais de 100 colegas exigiam muito. A individualidade ficava sacrificada.
Aos vinte e três anos o convite para deixar o Brasil e ir estudar na Itália. Misto de alegria e renúncia! Ao voltar, com o fecho do doutorado pronto, obispo da época me pede que fique para auxiliar um padre doente. Nunca maisvoltei para terminar aquela etapa! Estando com a paróquia de Socorro em plenaefervescência sou chamado para mudar para Campinas: organizar o curso deTeologia na PUCCAMP e o seminário da Província Eclesiástica. Que trabalheira equantos desafios! Tudo corria bem.
De repente sou chamado para vir para aigreja Catedral. Nova renúncia. Novo desafio. Após vinte e seis anos, quando alguns diziam que já era hora de desfrutar do trabalho feito, fui enviado para Atibaia.
Agora, aos setenta anos, a exemplo dos anciãos da Bíblia, sou chamado para novo ministério: a minha paróquia de origem. Na paróquia de SantaTerezinha fui coroinha, vivi os tempos de seminário menor, sou o primeiro padreda comunidade. Minha mãe e meus irmãos todos se envolveram na vida paroquial:catequese, dízimo, etc.
No meu caso e no de todos os padres sempre foi pedida a livre adesão aos pedidos do bispo. Nós todos prometemos, no dia de nossaordenação, respeitar e obedecer ao bispo como colaborador do seu ministério.
Não se trata de uma obediência infantil e cega. As resoluções são tomadas apósmuita conversa e análise. Onde o contraditório é colocado. Posso afirmar – eespero que creiam – que nenhum padre está deixando a comunidade em que serviusem que aceitasse essa missão. Isso não significa que não possa ser uma aceitação dolorida. Pelas amizades que se deixa, pelos trabalhos iniciados eque se gostaria de terminar. Pelo dia a dia que marcava a tônica das relações.
“Aceitar bem”, “estar contente” com a transferência não significa que não sesente nada pela mudança que ocorrerá. Aceitar o encargo que o bispo propôs significa maduramente assumir uma parte na missão da evangelização que podeimplicar dores. Mas assume-se isso na perspectiva da fé. Afinal ou cremos que aIgreja é governada pelo Espírito e este escolhe os seus apóstolos e sucessoresou não se é igreja de Jesus.
Quero repetir que as pessoas têm direito de manifestar seus sentimentos. É normal e é humano. E é bom porque testifica um bom serviço sacerdotal. O que não cabe é afalta de educação e de caridade para com o bispo. A discordância não precisaser mal educada, inoportuna e descaridosa. Faltando a caridade já se está forado espírito cristão. O melhor caminho é todos nos ajudarmos.
O sacerdote assumindo com a confiança de quem se sabe “enviado” à nova missão. Ascomunidades acolhendo os novos pastores e entregando os que saem às novascomunidades como um presente precioso. Porque afinal é a mesma igreja de JesusCristo. Além disso, a comunidade deve demonstrar a sua maturidade na fé. Ela se reúne ao redor de Jesus e a Ele serve. Se o padre que a deixa foi uma boa ponte entre ela e o Senhor será sempre lembrado e amado. E, afinal, a vida vale peloamor que se espalha! Quanto mais, melhor!