Deus é obrigado a me atender!

Deus é obrigado a me atender!

POSTADO EM 28 de Outubro de 2016

Image title


Por. Monsenhor GiovanniBarrese

Lendo nestes dias textodo Eclesiástico (35,15ss.) percebemos a mentalidade de que uma boa oferta no Templo de Jerusalém era a garantia de que Deus se esquecesse da conduta doofertante. E meditando sobre o texto de Lucas (18,9-14), que mostrava a diferençaentre a oração do fariseu e do publicano, se percebe que o relacionamento querido é umas espécie de “eu faço isso e o Senhor me dá aquilo”! Lendo trechos dos livros bíblicos das Crônicas (especialmente o segundo) vê-se no autor oreflexo da mentalidade daquilo que se costuma chamar de Teologia daRetribuição. Que vai gestar a Teologia da Prosperidade.

Ao analisar diferentes invasões e incursões de povos vizinhos e, especialmente, as invasões babilônicas - de modo particular a segunda - mostra que todo sofrimentoocasionado à nação foi fruto do afastamento dos reis, das autoridades e do povodos caminhos do Senhor. Embora constantemente advertidos por profetas e outras personalidades que falavam em nome de Deus todos fizeram ouvidos moucos.

Até que Deus perdeu a paciência e os deixou na mão dos invasores. Que pilharam,queimaram, mataram e escravizaram.  A desgraça foi fruto da desobediência. Este modo de ver não deixa de ter lastro de verdade.

Quando o ser humano assume ser critério de tudo e se fecha ao ensinamento divino o horizonte encurta e os danos do egoísmo e da ganância fazem o resto. Oque é falho na teologia da retribuição é que não há lugar para a misericórdia.A conclusão é que Deus ama e abençoa os bons. Só amará os maus se eles se converterem. O que não é verdade e, por consequência colocam-se limites o amor divino.

Embora o trecho de II Crônicas (36,22-23) fale que Deus suscitou Ciro,rei da Pérsia, como seu instrumento para a reconstrução da nação, fica semprena sombra que a benção dependerá da conversão. O que pretendo oferecer é umaabertura para procurar entender que o amor de Deus por nós não depende daquiloque nós façamos.

Em poucas palavras: Deus não nos ama porque somos bons ouporque nos portamos com o Ele quer. Deus nos ama também quando desobedientes emaus. Seu amor precede nossas atitudes. Não é consequência delas. Nos ajuda aanálise que São Paulo faz na carta aos Efésios (1,3-14; 2,1-10). Somos salvos,isto é, chamados à filiação divina de forma predestinada e gratuita. É por graça e dom que em Cristo somos regenerados. Não é por causa dos possíveis méritos(se é que possamos ter méritos diante de Deus). Nós não somos credores de Deus.Ele não nos deve nada.

Mas, qual é a vantagem de obedecer-lhe? Tanto faz ser bom ou mau? As obras que fazemos não tem nenhum valor? Em primeiro lugar épreciso vencer a tentação de que levar Deus a sério não vale a pena. A tentaçãoé forte porque, na prática, não se percebe que Deus premia os bons e castiga osmaus. Basta ver os inúmeros casos de corrupção que não recebem a penalizaçãodevida! O bem que fazemos tem sentido porque reflete a escolha de vida que sefez: demonstrar o amor Daquele que nos criou e que nos sustenta! Fica, porém, odesafio: por que nem sempre quem é bom tem a retribuição devida? Este tema émuito presente na Escritura e o Livro de Jó é um belo exemplo.

Em segundo lugarquero chamar a atenção para a prosperidade que seria consequência retributivada obediência a Deus. Essa mentalidade foi analisada brilhantemente por MaxWeber em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Empalavras simples: o sucesso, principalmente material significa a benção deDeus. A pobreza é sua maldição. Quem é rico é porque Deus lhe retribui. Quem é pobre nada fez para merecer a benção divina.

Esse tipo de pensamento religioso é muito presente em nossos dias em muitas igrejas de viés neopentecostal. Penso que os leitores “zapeando” a TV podem ver os desafios a “dar tudo a Deus”porque Ele devolverá muitos mais. Há constantes apelos em despojar-se de todasegurança e jogar-se nas mãos de Deus! Não quero negar a fé e confiança naProvidência Divina.

O que está em jogo é o fugir da visão real de como asociedade é constituída e de como a injustiça está presente nas relaçõeshumanas. As bases da retribuição e das promessas de prosperidade não levam emconta a responsabilidade humana pela maldade que gera quando não vê no serhumano a imagem e semelhança de Deus.

Se tudo é questão de benção e retribuição, como é que fica quem é esmagado pela miséria e procura servir aDeus de todo coração? Terá que “sacrificar” tudo o que não tem para que Deus oabençoe? Ou será que nos esquecemos de que Deus não fez e não faz diferença depessoa e ama a todas com igual amor.

E que retribuição e prosperidade dependemdo procedimento justo das pessoas entre si? Valha para nós a certeza de que oamor de Deus por nós não depende de nossa bondade ou do que lhe ofertamos. Ele precisa de algo? Nossa oferta, maior que seja, pode preencher sua Infinitude?  Deus fala ao nosso coração para que voltemosa Ele (livro de Oséias). Porque nos ama e nos quer felizes. Ele não quer outracoisa e nem precisa dela!

 

© Copyright 2025. Desenvolvido por Cúria Online do Brasil